#11830284, By RockyMotion

  • RockyMotion 20 Apr 2017 03:37:19 11,750 posts
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    Chega a hora da conferência da Microsoft.

    Depois de uma performace de vinte minutos do Cirque du Loleil, o tio Phil toma o palco preto e verde. Como de costume traz vestido um blazer casual chic, aberto para revelar uma T-shirt com o logótipo de um jogo recomendado pelo departamento de PR. A sua musculatura facial contorce-se num sorriso que até pareceria autêntico se alcançasse os seus olhos.

    Ele introduz a Scorpio, uma caixa preta rectangular do tamanho de um pequeno frigorífico. Enquanto o ecrã de fundo projecta animações CGI de placas de circuitos a serem desmontadas e re-montadas por forças invisíveis, Phil enaltece o poder sem precedentes da consola, o esforço e paixão que os designers da Microsoft verteram sobre a realização desta opus, os mil milhões de transístores contidos naquela caixa negra.

    Em suma, o título de "Titã Negro do Amor" não ficará na posse da Sony por muito mais tempo.

    O público aplaude, mas é um aplauso contido, formal. O Tio Phil ainda não disse nada que a Digital Foundry não nos tenha contado com menos buzzwords corporativas. Onde está a Cornucópia de jogos que a MS prometeu? Onde está a Renascença do gaming ocidental?

    A próxima hora e meia é passada com o Phil a chamar convidados ao palco.

    O CEO da EA apresenta DLCs exclusivos temporários para o novo FIFA e Battlefield.

    Representantes da ESPN, Netflix, MSNBC, Hulu, HBO e Amazon apresentam canais e funcionalidades de TV que nunca verão a luz do dia fora dos Estados Unidos.

    A Rare relembra o público dos tempos em que tinha talento verdadeiro, apresentando meia dúzia de remakes de jogos de há vinte anos atrás. Enquanto abandona o palco o dev tem um súbito ataque de tosse que soa estranhamente como "Sea of Thieves cancelado".

    O sexto Halo é anunciado, uma década depois da icónica camanha de marketing "Halo 3: Finish the Fight".

    Um designer cujo nome será esquecido em meia hora apresenta o Kinect 3.0. As suas sete câmaras e quatro microfones estão incorporadas na face da Scorpio; nunca se desligam mesmo quando a ficha está fora da tomada (autonomamente energizadas pelas novas baterias nucleares de poder eterno que a MS desenvolveu especificamente para este propósito), e activarão um choque eléctrico paralisador caso o jogador as tente tapar. Nos bastidores sombrios um agente da NSA esfrega as mãos com entusiasmo.

    Os aplausos tornam-se mais e mais fracos até que estão limitados aos empregados que a MS tem na audiência.Tornam-se em sussuros indignados quando o Tio Phil anuncia o preco de novecentos e noventa e nove unidades de moeda corrente local, ponto noventa e nove cêntimos.

    Nas terras digitais da internet cresce uma razia que faz com que o rescaldo da apresentação da "Xbone" de 2013 pareça agradável.

    O Tio Phil mantém-se inafectado, aparentemente sem noção do desastre publicitário a fermentar à sua volta. "Ainda não acabamos."

    As luzes apagam-se.

    Um holofote solitário ilumina a margem direita do palco, onde emerge uma liteira de ouro maciço carregada por uma equipa de seis escravos musculados. Banhado pelo pilar de luz, o palanquim é transportado para o centro do palco onde o Phil espera pacientemente.

    Uma mão gorda aparece de dentro e abre as cortinas da liteira... revelando uma face moldurada por camadas de banha, e óculos, e uma barba grisalha.

    Gabe Newell.

    O anfiteatro torna-se mais silencioso que uma tumba. Um silêncio grávido. O tipo de silêncio que precede eventos que mudam o mundo.

    O ecrã de fundo projecta uma sequência de logótipos. Primeiro o da Valve. Depois o da Xbox.
    "Ontem a Valve foi adquirida pela Microsoft por uma quantia que não iremos divulgar" explica Newell, murmurando para o microfone que o Phil lhe passou.

    Silêncio.

    Aparece o logótipo do HTC Vive.

    "Com a cooperação da HTC decidimos abandonar o seu suporte para PC e torná-lo compatível com a Scorpio apenas"

    Silêncio.

    Aparece o logótipo da Steam.

    "A Steam vai migrar para a Xbox Scorpio, incuindo todos os seus jogos. Depois do update obrigatório de hoje deixarão de funcionar no PC. A legalidade desta mudança é coberta sob a declaração de Termos e Condições que vocês nunca lêem."

    Silêncio.

    Aparece um último logótipo, de cor laranja. Um lambda acompanhado do número três.

    "Half Life 3 existe e será um exclusivo de lançamento da Xbox Scorpio."

    Newell devolve o microfone ao Phil e volta a fechar as cortinas da liteira, que os seus escravos começam a carregar para fora do palco.

    O silêncio dura mais uns dez segundos e depois transforma-se numa erupção de aplausos orgiásticos. É quebrado o recorde do Guinness para a ovação mais comprida de sempre. Membros da audiência gritam cânticos de "Xbox" "Microsoft" e "Tio Phil" até enrouquecerem. Não são poucos os que caem ao chão em êxtase, sofrendo de convulsões e espumando da boca.

    A Sony e a Nintendo cancelam as suas apresentações, sabendo que a única opção que lhes resta é declarar falência. Os Sony ponies, nintenyearolds e membros da PC Mustard Race demasiado orgulhosos para se converterem ao Xboxismo cometem suicídio colectivo.

    Quando o furor acaba, o Phil gesticula para o público se acalmar. O palco ainda está escurecido; agora é o Phil iluminado pelo holofote como que um anjo abençoado por raios de luz divina.

    "Senhoras e senhores, sei que depois de um anúncio destes é difícil deixar mais impressões fortes. Mas ainda tenho uma lição por ensinar. Dêem as boas vindas ao nosso último convidado da noite... Kamiya-san, diz olá!"

    As luzes voltam a acender-se e a audiência solta centenas de suspiros de surpresa quando se apercebem o que se passou. Enquanto os anúncios do Newell se desenrolavam, uma enorme cruz de madeira tinha sido erguida na parte escura, agora revelada.

    Afixado à cruz por pregos e arame farpado, emaciado e ensanguentado e nu como o dia em que nasceu, está a segunda lenda da indústria "convidada" ao palco pelo Phil. Hideki Kamiya. Visionário da Platinum games. Realizador-chave do abortado Scalebound.

    "Baka gaijin! Hanase!" Protesta o pobre diabo na sua língua nativa, voz enfaquecida por dias de abuso.

    "Nós confiámos no Kamiya-san e na sua equipa para nos entregarem um exclusivo de qualidade. Demos-lhes um orçamento de topo. Em troca da nossa generosidade esfaquearam-nos nas costas. Desviaram o nosso dinheiro para o desenvolvimento de Nier Automata, um exclusivo da concorrência."

    "Usotsuki!

    "Julgaram que escapariam impunes. Que a Microsoft deixaria isto cair no esquecimento"

    Homens de preto com balaclavas a cobrir a cara e mangueiras na mão aproximam-se. Esguicham um líquido opalescente na cruz e no seu ocupante, cujos gritos começam a ganhar força e a ultrapassar a rouquidão. O fedor de gasolina penetra o ar.

    "KONO YAROU! YAMERO! YURUSANAI!

    Surdo às implorações do seu prisioneiro, o Tio Phil tira calmamente uma caixa de fósforos do bolso do seu casaco e acende um.

    "Julgaram mal. Servirão de lição àqueles que se acham capazes de nos desafiar."

    E com um estalar casual dos dedos, atira o fósforo.

    Numa fracção de segundo, cruz e crucificado são envolvidos num manto de chamas.

    Os gritos da infeliz criatura que se chamava Hideki Kamiya tornam-se incoerentes, indistintos, inumanos. Demora um tempo surpreendentemente comprido até que desvaneçam.

    Um membro da audiência ajoelha-se. Outro imita-o. Depois outro, e outro, e outro, até que todos os presentes estão ajoelhados perante o seu novo Deus, cabeças baixadas em reverência.

    A musculatura facial do Tio Phil contorce-se. Os seus lábios formam um sorriso que não alcança os seus olhos.

    "Bem-vindos à nova era do gaming."

    Editado por RockyMotion às 08:23:12 20-04-2017
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